
FS Modas
junho 17, 2026
Planejamento ajuda a evitar compras por impulso e endividamento
junho 30, 2026Com mais de 75 milhões de consumidores negativados no país, dívidas pequenas também viram obstáculo para quem tenta manter comida na mesa, contas em dia e acesso ao crédito
A inadimplência deixou de ser apenas um número nos relatórios econômicos e passou a fazer parte da rotina de milhões de famílias brasileiras. Por trás de cada CPF negativado, existe uma história de aperto: o cartão usado para completar a feira, a conta de luz que ficou para depois, o remédio comprado parcelado, o empréstimo feito para cobrir outra dívida.
De acordo com dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil, o país chegou em maio de 2026 a 75,06 milhões de consumidores inadimplentes. No mesmo levantamento, cada pessoa negativada devia, em média, R$ 5.145,04, com pendências junto a cerca de 2,34 empresas credoras. O dado mostra que a inadimplência, muitas vezes, não está concentrada em uma única conta, mas em uma sequência de compromissos que vão se acumulando.
Outro ponto chama atenção: nem toda dívida é alta. Segundo o levantamento da CNDL e do SPC Brasil, 29,19% dos consumidores inadimplentes tinham dívidas de até R$ 500, enquanto 41,52% deviam até R$ 1 mil. Isso revela que, para boa parte da população, valores relativamente baixos já são suficientes para bloquear crédito, gerar cobrança, dificultar compras parceladas e aumentar a sensação de sufoco financeiro.
O problema também tem um componente de repetição. Em março de 2026, a CNDL e o SPC Brasil apontaram que o número de devedores reincidentes cresceu 14,06% em 12 meses. O estudo também indicou que, em média, após cerca de 74 dias do vencimento de uma dívida negativada, outra pendência já vence para consumidores reincidentes.
Na prática, isso significa que muitas famílias não conseguem sair completamente do vermelho. Elas renegociam uma conta, atrasam outra, pagam parte do cartão, deixam o crediário para o mês seguinte e seguem tentando equilibrar uma renda que, muitas vezes, não acompanha o aumento do custo de vida.
É o caso de Cristina Mendonça, que vive a realidade de muitas mulheres que administram sozinhas o orçamento doméstico. Moradora do Bairro Popular, em Santa Rita, ela conta que a dívida começou pequena, mas cresceu quando precisou escolher entre pagar o cartão ou comprar o básico para casa.
“Eu nunca fui de deixar conta atrasar. Mas chegou um mês em que tive que escolher: ou pagava o cartão, ou fazia a feira. A gente vai empurrando, pagando o mínimo da fatura, pegando um dinheiro emprestado, e quando vê já não sabe mais nem o valor certo que deve. O pior não é só o nome sujo. É a vergonha, a preocupação e a sensação de que todo mês começa já devendo”, relata Cristina.
No Nordeste, o cenário acompanha a pressão nacional. Dados referentes a maio de 2026 apontam que a inadimplência na região cresceu 6,04% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na Paraíba, o avanço foi menor que a média regional e nacional, mas ainda preocupante: o número de consumidores com restrição de crédito no estado cresceu 4,30% no mesmo período.
A Paraíba já vinha sentindo esse impacto no fim de 2025. Segundo dados da Serasa, cerca de 1,31 milhão de paraibanos encerraram o ano com algum tipo de dívida em atraso. O levantamento apontou que 44,33% da população adulta da Paraíba estava inadimplente em dezembro de 2025, percentual superior aos 40,49% registrados no mesmo mês de 2024.
Em cidades como Santa Rita, na Região Metropolitana de João Pessoa, os efeitos da inadimplência aparecem no cotidiano do comércio, das famílias e dos pequenos empreendedores. O município tem população estimada em 160.852 habitantes, segundo o IBGE, e concentra uma dinâmica econômica marcada por trabalhadores formais, informais, pequenos negócios, comércio de bairro e famílias que dependem de renda mensal apertada.
Embora os levantamentos mais recentes não tragam um recorte público específico para Santa Rita, os dados da Paraíba ajudam a dimensionar o problema local. Em uma cidade onde boa parte das relações de consumo acontece no comércio de proximidade — mercadinhos, farmácias, lojas de confecção, oficinas, salões, armarinhos e pequenos serviços — a inadimplência atinge os dois lados do balcão. O consumidor perde poder de compra e acesso ao crédito; o comerciante vende menos, recebe com atraso e precisa redobrar o cuidado na concessão de parcelamentos.
A recuperação de crédito, nesse contexto, precisa ir além da cobrança. Especialistas do setor defendem que a renegociação deve considerar a capacidade real de pagamento do consumidor. Parcelas que não cabem no orçamento apenas empurram o problema para frente e aumentam a chance de nova inadimplência.
A Serasa informa que o país possui centenas de milhões de ofertas disponíveis para negociação por meio de plataformas de renegociação, com mais de R$ 1 trilhão em ofertas disponíveis em meses recentes. O volume mostra que há espaço para acordos, mas também revela a dimensão do endividamento das famílias brasileiras.
Para quem está endividado, o primeiro passo é levantar todas as pendências, identificar juros, priorizar contas essenciais e evitar assumir um novo compromisso sem saber quanto realmente pode pagar. Já para o comércio, especialmente o pequeno lojista, a recuperação de crédito passa por diálogo, análise de risco, negociação responsável e campanhas que estimulem o consumidor a regularizar a situação sem perder completamente sua capacidade de consumo.
A inadimplência, portanto, não é apenas um problema individual. É um retrato econômico e social. Quando uma família deixa de pagar, muitas vezes não é por falta de vontade, mas por falta de renda, instabilidade no trabalho, aumento de despesas básicas ou acúmulo de emergências. E quando milhões de famílias entram nessa condição, o reflexo chega ao comércio, aos serviços, à arrecadação e à economia local.
Em Santa Rita, como em tantas cidades do Nordeste, falar de dívida é também falar de comida, transporte, remédio, aluguel, energia e dignidade. A recuperação do crédito precisa começar pela recuperação da vida financeira das pessoas — com informação, negociação justa e políticas que ajudem as famílias a sair do ciclo de atraso sem cair novamente nele.





